Pesquisar este blog

domingo, 5 de setembro de 2010

Que tal um país assim?

   2042. Chega ao poder o PNH, após vitória assustadora em pleito indiscutivelmente democrático e sem ofensas indesejáveis entre os adversários, algo, até então, inédito no país. Os noventa e um porcento no primeiro turno causaram uma estupefação um tanto incômoda fronteiras afora. Desconfiava-se de tal eleição, falavam até em golpe de estado, esquema ilícito dos órgãos eleitorais e no voto por coação psicológica. Os jornais estrangeiros estampavam: “What democracy?”, “Hasta de los 10% se sospecha”, “Ha tornato quell’America?”. Mas, quem no país estava, estrangeiro ou nativo, não tinha dúvidas. Fora a mais justa e indiscutível eleição dos últimos tempos, com muita transparência dos candidatos e dos responsáveis pela apuração de votos.
   O que havia de novo era a disputa ideológica, que em nada lembrava os pobres intelectuais do século XX/início do século XXI. Após a guerra bilateral, o Oriente, com sua imperiosa Liga, derrotou o Ocidente, liderado pela desestruturada Nação Europeia. Os costumes padrões agora eram outros, mas A Liga, com algumas exceções, não impusera seus costumes nem sua cultura, apenas sua liderança no tocante à economia, ao exército e na exploração dos bens naturais ocidentais que lhes pudessem ser úteis. As pseudodemocracias centro e sulamericanas foram depostas. O único país invadido completamente fora os Estados Unidos, o que até se era esperado. Eles se tornaram a Ásia de Apoio, território político e militar dividido entre China, Japão, Rússia e Tigres Asiáticos para consolidar, dentre outras coisas, a própria vitória. Os poucos norteamericanos que não foram dizimados faziam parte do exército asiático, na parte central da Ásia de Apoio, e falavam agora mandarim.
   Todavia, a democracia conhecida do século XX desenvolveu-se naturalmente no resto do ocidente. Só que agora os países da Europa e da América do Sul, por exemplo, viviam uma vida submissa economicamente e com uma política basicamente interna. Externamente, o diálogo era mais entre os órgãos de imprensa, que se esforçavam numa tarefa simplória, mas ainda honrosa, para eles, de tentarem manter tudo que derivava dos “bons tempos” do século XX, como a democracia presente neles. Portanto, um partido chegar ao poder significava tão somente em regular a vida de seus cidadãos a seu modo. E com uma eleição quase unânime de um partido ideologicamente singular, fez-se instaurar um clima de certa apreensão nos ocidentais. Uma das coisas considerada boa nessa nova ordem mundial fora a destituição dos populistas sulamericamenos.
   Mas por que tanta balbúrdia? O PNH venceu o Partido Unido da Democracia e o Partido Democrático das Religiões e Crenças com uma proposta de consolidação de um regime vegano no país. Isso. PNH significava Partido Não-Humano.
   Mesmo com apenas 39% de nativos veganos, e a ligação do PNH com uma facção vegan multinacional, denominada Smory, responsável pela radicalização da ideologia vegana, o partido conseguira conquistar quase a totalidade da população, pois possuía projetos assaz importantes, realizáveis e muito originais. comparados aos de seus adversários. A sua ideologia central nem sequer fora muito explorada em sua campanha. E de certa forma, aí estava o perigo. Ao assumir, seu principal foco estava na remodelação de todo o comportamento alimentar, industrial e consumidor em seu território. Começou com um total corte de exportações e importações de produtos de origem animal. Em seguida, a Vega, polícia criada para garantir a saúde e uma “re-humanização” das pessoas, fez um “rapa” em todos os estabelecimentos comerciais e fábricas do país, destruindo tudo que fosse fruto da horrenda e sagaz exploração do homem sobre qualquer animal. As sociedades privadas apenas tiveram seus fins originários destinados a outros, além de trabalharem em novos espaços. O PNH já parecia ter tudo planejado desde muito cedo; a polícia já estava, secretamente, formada e treinada há mais de dez anos, e contava com um grande contingente, bem distribuído em todas as regiões. Ao assumir o governo, foi só aliar as polícias comuns, as de força, às suas. E, dessa parte, cuidava a Smory, que administrava e planejava as operações desta a fim de agilizar a generalização de sua ideologia. Como o veganismo abole qualquer tipo de violência, o PNH , de início, fazia que não era consigo quando qualquer força institucionalizada agia para algum fim seu. E não era de certa forma. A Smory agia como um governo à parte, livre e independente para fazer cumprir os planos do PNH.
   Leis foram criadas, Emendas significativas à Constituição também, e nem sequer o partido percebeu quando o Regime já estava posto. As mudanças nas indústrias e no comércio foram até mais rápido do que o partido desejava. A luta concentrava-se mesmo contra o povo, a massa, os que nem sabiam lá direito o sentido de veganismo. Comer carne para eles era tão natural quanto comer verduras. E como adaptar todo um povo acostumado a vestir-se, ensaboar-se e perfurmar-se de forma “indevida”, por um mero capricho, e por que não dizer, irracional? Mas nada que um regime bem estruturado não pudesse resolver, afinal, a massa sempre faz o que seu governo quer. E, por sinal, qual o sentido de ‘massa’ mesmo? Pois é. Um bolo pensante, ou melhor, não pensante, puramente instintivo, que só estava agindo do modo não-vegano porque, em toda sua vida, praticamente não o conhecera. E, em uma questão de tempo, estaria nas ruas abraçado às bandeiras do veganismo, defendendo-o com o mais singelo afinco. E a mídia, como sempre, se fez de instrumento. Se antes era para incentivar consumir o desnecessário, alimentar matanças de espécies por mero lucro, agora, era servia para explicitar os benefícios da cultura vegana, de como sua ideologia era mais saudável, mais barata e muito mais politicamente correta, e como o homem não-vegano era sinônimo de assassino e torturador tanto da sua espécie quanto das outras. Para isso, achou-se necessário um canal televisivo estatal, o Estilo de Vida, majoritário e privilegiado em relação aos outros.
   Inegavelmente, o PNH estava rompendo com muitos princípios, tanto seus como constitucionais, para a consecução de um fim geral. O poder o fez perder certo autocontrole e desfocar de tudo que não fosse relacionado ao estilo de vida vegana. A educação, por exemplo, teve fundos reduzidos significativamente, já que o período inicial do governo foi todo voltado ao fim dos antigos costumes e adaptação à força aos novos. Em seguida se pensaria em outros afazeres. A ala mais conservadora do partido, diante da já abusiva atuação do PNH, revoltou-se. A implantação governamental da ideologia e do estilo de vida era sim desejada, mas não com tamanho abuso. As polícias invadiam as casas, reviravam as geladeiras, levantavam colchões, revistavam pessoas nas ruas, descalçavam e rasgavam roupas até de crianças. Fazia-se de tudo para impedir o comércio ilegal das “novas drogas”, nome dado às carnes. A todo momento a Vega prendia contrabandistas delas, e também muitos jovens que não conseguiam se adaptar ao regime, e escondiam as “novas drogas” até nas meias. Pontos, eventualmente propícios para se consumir as antigas drogas, agora serviam para comer, escondido, uma bisteca ou uma salsichinha, que fosse. Mas a Vega sempre descobria esses pontos, o controle era incessante. Parecia haver agentes dela em toda parte, e quem era pego apanhava absurdamente, além de passar dias sendo humilhado em detenções. Na prática, era a filosofia da Smory que estava a governar, mas isso já nem incomodava os líderes do PNH. No geral, ideologicamente, tudo dava certo, além de seu poder no Parlamento estar mais que consolidado. O máximo que os discordantes do partido poderiam fazer era desfiliar-se. Mas a maioria não quis abdicar de seus cargos e do Governo por uma tão ínfima distorção na ideologia, já que na prática, o fim maior ia sendo conquistado e ninguém estava morrendo por isso.
   Com a mídia controlada, a população perdera muito do contato com o mundo externo. Tudo relacionado à alimentação e animais, em outros países, passava por censura. Assim, sem nenhum estímulo mental, o desejo por carne, motivo de maior revolta no início do regime, simplesmente desaparecera. E, em quatro anos, o povo nem se lembrava que um dia seu cardápio fora diferente. Importante relatar que, com tamanha reestruturação em setores econômicos e industriais, ninguém perdera seu emprego. Na prática, as pessoas “afetadas”, só mudaram de profissão, e continuaram ganhando o mesmo. E essa foi a maior genialidade do PNH. Ou não. Já era sabido que a Smory tinha uma renda um tanto obscura e significativa, o que garantia uma boa ajuda ao PNH. Por isso, esta precisava daquela, mesmo com seu radicalismo. Enfim, bastava agora o governo fazer alguns investimentos relâmpagos na educação e tudo estaria em paz, para sua reeleição.
   Em incríveis poucos anos, praticamente tudo estava sob controle: 80% da população se declarava vegana por opinião própria; 15 % diziam ser veganos forçados; e outros 5% se declaravam não-veganos, mesmo que inevitavelmente já o praticassem. O relevante dos dados era que ninguém, até porque não se era mais possível, financiava o capital esfolador de animais, nem destes se alimentava, deixando-os felizes e saltitantes.


2 comentários:

  1. Bem, valeu pela criatividade. :P

    Agora corrigindo alguns pontos quanto ao veganismo, que ou foi licença poética ou foi ignorância: "veganista" é vegan + feminista; nem todo vegano é antiviolência (Gary Francione é um que coloca que é impossível ser vegano e violento); e ter educação com fundos reduzidos seria um sacrilégio para o Movimento, como é concebido hoje.

    :P , valeu aí pela referência heheheh

    ResponderExcluir
  2. Foi por ignorância... mas agora que eu sei, é licença poética. ;D

    ResponderExcluir