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sábado, 30 de setembro de 2017

As pessoas fazem o lugar


O que seria da vida não fosse os encontros? Se perdes tudo, o que pode restar além das companhias, das amizades, dos amores, do sentimento compartilhado? Viver o presente e imaginar futuros só faz sentido ao lado de quem se quer bem, sonhar de peito quente com quem se pode abraçar, pegar pela mão e seguir rumo a qualquer que se apresente como destino.

Em um momento de epifania, no calor do sentimento, Caetano, cercado de amores, envolto em angústias, deixou escapar que ali ele e os seus viviam na melhor cidade da América do Sul. Não importa saber se era São Paulo, Rio de Janeiro ou Salvador.

Algumas vivências marcam profundamente a percepção de que são as pessoas que fazem o lugar, qualquer que ele seja. E essas pessoas se tornam um lugar próprio, uma memória afetiva que não reconhece fronteiras nem distâncias.
se o amor não é fácil
só pode ser um bom sinal
não que amar e sofrer tenham
sempre que se encontrar
mas amor é superar

a construção do amor
se fortalece passando pelos desvios de rotina
para além dos confortos e da acomodação
na capacidade mútua de se entender
e de resistir para que o amor vença
sem que haja vencedores

viver o amor pleno
é amar em cada outro sentido
é amar acima de qualquer outro sentimento
é fazer o amor ser caminho e chegada
é chegar no caminho
para o viver juntinho

duros dias duros


duros dias duros
pior quando duram
agudizando as incertezas
perenizando as crises
em cada minuto da vida

cadê a rua, cadê a massa?
dura vida cinza
sem a cor das pessoas
sem o calor das suas vozes
e a força dos seus olhos em cumplicidade

olha aí as pessoas
a resistência não para
não estamos entregues
nem todos acreditam
quantos são os que houvem?

cadê a esperança?
aquela real virando à esquina

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

sobre formalidades


uma carteira que diz
atesta o que é
ou uma pretensão do ser
tacha algo
apropria-se
alimenta exibidos

toma pra si liberdades
cria status
torna o humano bobo
se deixar, imbeciliza


Estúpido


estúpidos humanos
rejeitos mais tóxicos
de uma racionalidade
antiexistencial

extermínios humanos
das águas doces dos equilíbrios naturais
dos pobres peixes
dos pretos pobres

ao fim das subsistências
a execução dos futuros
com os sepultamentos do presente
tragédias artificiais do natural

queimadas cínicas das águas claras
a pequenez humana devasta sem fé
acinzenta o pouso dos morros

matas, serras, animais,
vidas humanas banais
entre o fogo, a lança, os lucros
e a estupidez

um vale inflamado
entre insurgências muitas
clamores em voz
contra a ideologia da barbárie

brutalidades ardem
uma violência indigesta
gases, bombas, tiros
e irracionalidades

e no meio da dispersão
surge do alto d'uma caçamba qualquer
presença feminina de olhar cortante
com gestos firmes e gritos decididos,

ordena que fiquem
deságua coragem
em meio a incertezas,
inflama a resistência

alheia ou não à relação entre revoltas e primaveras
o certo é que aquela espirituosidade de luta
tinha nome de flor

sexta-feira, 17 de abril de 2015

O triste fim da seletividade


Tenório passou a vida crendo que pena resolvia e que prisão ressocializava.

Trabalhou duro, ganhou pouquíssimo. Mas serviu à sociedade. É o pensamento, ainda que contestado pelo inconsciente, mas inafastável de tanto que convém à sanidade da mente.

Teve boas intenções. Onde tortura reinava, e era aplaudida, carrasco não intentou ser.
Queria era aplicar a lei e alimentar suas crenças que martelavam naquele sistema.

Sua função pouca gente nesse mundo gostaria, nenhuma autoridade valorava, a não ser pela hipocrisia do bem comum. Seus chefes eram gente fina, que não suja suas mãos para aplicar sua ideologia suja. Mas para todos os efeitos era para o bem da sociedade.

Tenório era o escudo daquele sistema. Quem tomava a primeira facada nas erupções previsíveis daquele vulcão que é a prisão.

E para assegurar tamanhos direitos da sociedade, este senhor ia fraquejando nos seus. Eram tantas violações...

Do subúrbio nunca saiu, da subordinação também não... aquela que curiosamente ele tinha que impor aos presos.

No sufoco ao se deslocar na cidade pra onde nenhuma sociedade quer ir, mas de lá esperaram sua segurança do lado de cá.

E depois de décadas nessa exploração, além de tudo, mental, nada mudou.
Resolveu nada pra ninguém.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Cordas

um canto em teias
tecendo olhares
a admirar
o assobio do oriente

teias sonoras
que prendem o ar
e soltam mentes a viajar
na condução de desejos
que flutuam na onda
de um assobiar

sábado, 1 de fevereiro de 2014

uma noite dessas

Que timbre, Tim
Noite sem par
Deitada em copo de vinho
Acordo com o tinto

Embalo esse funk, esse soul
É pra sobrepor qualquer abstração
Desse irritante e silencioso caos
Que me põe a teorizar em mililitros

Tim reclama, tá ali, prevê
Um dia chegamos lá
Ele lá, eu cá
Vou aqui sonoramente brindar

Cabe esse pedido, Félix
Que recurso foi esse?
Pena, não. Direito que pena
Direito de apelar, vá lá

Apele, Félix
Mais vinho no pedido
Pena que
"Concentre-se" é o dispositivo


sábado, 4 de janeiro de 2014

façamos

vem o mar
me abraça sorrateiramente
como quem se faz desconfiar
mas o recado é de suportar
tornar leve o desgosto
por essa materialidade

no desarranjo dos dias destes anos
que começam sem ter havido qualquer término
de multicalendários sobrepostos
e igualmente déspotas,
unam-se as forças de resistência

pois é preciso enfrentar
não temer
nem o tempo, nem as horas,
nem a sequência de indiferentes pores-do-sol

na espiritualidade do mar que nos navega
transcendendo para se manter atento e forte
de certo que o tempo é de muitas lutas
e isso não haverá de se negar

aproveite-se, então, a falsa virada
para fazê-la verdadeira
inverter essa tola ordem
pois se o que se quer é subversivo
que soterremos o ora posto, o sempre imposto
e que amanheça, sim, uma desordem

na transformação simples
e radiante de uma manhã
façamos da rua quintal
do palco a pista
de tudo uma só conquista


quarta-feira, 23 de outubro de 2013

certo olhar

trejeitos alinhados
sutilmente decididos
como quem acusa o desejo
e assim o deixa escapar

fala mais do que se poderia escutar
gesticula com malícia
uma pretensa conquista ocular

forte, mantém-se sereno
não se deixa duvidar
é, sim, um cume calmo
que assenta o encanto
porventura a se desencontrar

receptivo e remetente
dialoga como um flerte
ora como mero verbete
que se inscreve como palavra
na 'memória poética' de quem olharte

terça-feira, 6 de agosto de 2013

assim ó

andando por aí
vejo que tem gente vazia por todo canto
gente que passa satisfação e despreocupação
gente que triste,às vezes feliz, que se acha feliz
gente

talvez nem concordem
que demonstram um desânimo intrínseco
por vezes, desesperança
pode ser o sistema econômico voraz
a mentalidade pós-moderna fugaz
mas quem sabe estar bem
e o que é estar bem

autoilusões
preocupam mais

alguém disse que tem de ser dois
a papa do feijão com o arroz
e o um que fique pra depois
fora do ecrã

de uma realidade digital
massificada
ora embaçada,
embora elogiada
dita visionária
não antes embasbacada
pelos que a/se dominam

vos amam
vis tais dias
que nem vos chamam

abraçando a saudade
acolhendo seus ombros
encolhendo-se lá fora
não desce pra ver
não vai te perceber

acabou
ninguém notou

sábado, 18 de maio de 2013

bicondicional

Não saber até que ponto
ser impulsivo
ou ser todo ouvidos

Difícil ponderar
dois eus querem se dominar
e agir tal qual sujeito
desse predicado da vida

O certo é que ninguém sabe
mas todos afirmam
com elegante e falsa certeza
que assim ou assado
fica tudo melhor temperado

Não sei
não vos creio
padeço sem morrer
vivendo de tanto receio

sábado, 11 de maio de 2013

Morreu!


É o brado de um senhor de terceira idade, ainda servidor público, em algum cartório judicial desse Brasil. Brado feliz, diga-se. Nada mais que uma cena cada vez mais freqüente entre profissionais envolvidos com a área jurídica, sobretudo no âmbito criminal.

Não é novo que o sistema penal brasileiro sofre de inúmeros graves problemas, nem que o Estado brasileiro é ineficiente nesta seara, cometendo deslizes desde a elaboração de muitas leis à persecução criminal e aplicação desproporcional da privação da liberdade, muitas vezes antes de uma sentença condenatória. Diante deste contexto, com a desigualdade social, ainda abissal, neste país, estagnada ou crescente, sem perspectivas de mudanças estruturais, problemas como aumento da criminalidade, fome, desemprego, falta de moradia, crianças, velhos e adultos em situação de rua, ou seja, de negação de direitos fundamentais, se mantêm. Porém, apenas aos olhos de poucos, vez que, aparentemente, para a maioria o Brasil é visto como um país em crescente economia, que alavanca sua nobre classe média e conforta a tradicional classe alta.

Historicamente conhecido por negar um enfrentamento às causas destes problemas, o Estado brasileiro primou por medidas pontuais que enfrentassem o resultado dos problemas, sem que isso nunca tenha demonstrado qualquer indicativo de eficiência. Assim, o encarceramento excessivo, a repressão a “criminosos”, às drogas, aos jovens negros favelados suspeitos, não diminuiu os índices de cometimento de crimes, ao contrário, gerou um caos ainda maior na segurança pública, pouco ou mal planejada, geralmente vista de forma rasa como construção de presídios e compra de novas viaturas policiais.

Enfim, isso tudo reflete em um bombardeio de processos todos os dias nas Varas Criminais, sem que se tenha dado tempo ou que se tenha havido aparato estatal para solucionar os muitos processos antigos, que se acumulam nos armários e na velha conhecida “mesa do juiz”. Enquanto isso, muitos acusados “aguardam”, presos provisoriamente, para “garantir” a instrução – longa ou precária – do processo, ou para supostamente salvaguardar a ordem pública, ainda órfã de definições objetivas.

Neste caos, eis que o que se fizer para concluir o processo da forma mais rápida possível, nem que seja sem nem haver uma instrução adequada, que permita efetiva defesa ao acusado, é aclamado. Então, quando chega a notícia de que algum acusado já veio a falecer – na realidade da justiça paralela, a das ruas, onde agentes estatais paladinos pré-julgam, condenam à pena de morte e a executam, possivelmente após um caso de resistência, no qual o sujeito curiosamente fora baleado nas costas, como muito acontece – é sinal de alívio e até de alegria.

Punhos chegam a ser cerrados em comemoração às mortes, que representam processos e trabalho a menos. O sorriso se abre no rosto do atendente do balcão, passando pela diretora do cartório, pelos assessores do juiz e até pelo membro do Ministério Público. Situação corriqueira, que quinzenal ou mensalmente se repetia. Triste realidade. Vista de perto por alguém que ainda nutre (ou tenta) algum sentido de humanidade na vida, e, independente disso, “apenas” deseja que garantias constitucionais e internacionais, conquistadas ao passar de muitos anos (ou séculos?) e períodos difíceis, sejam efetivadas.

PS: o senhor referido é um juiz de direito.

sexta-feira, 15 de março de 2013

vai saber


isso aqui é a poesia
pra que escrever
e tentar enquadrar
o que escrito está
na paisagem do lugar?

a tarde cai
pintando de amarelo
manchando em tom avermelhado
esse lugar de arte banhado
no leito do rio
que não se vê

no olhar do mar
que contempla o largo
que admira a abundância
a brilhar de um lado
e aqui todo mundo apertado