Era um dia de Março, um dia chuvoso em Salvador, daqueles em que a água chama a atenção do mundo para si. Só não chamou a atenção de Chiclete. Chiclete era um cãozinho reservado, desligado para com os outros cães e extremamente ligado aos humanos que considerava da sua família, daí vindo seu apelido. A chuva caía perpendicularmente há mais de duas horas, os estragos já eram grandes e uma tensão pairava sobre o que mais poderia acontecer se a tempestade continuasse. Andando pela Avenida ACM, perdido, o cão procurava um dos seus donos. Chegara em Salvador há dois dias, mal tinha dormido, havia apanhado de outros cães, mas também havia revidado, e não sabia exatamente a rua em que se encontrava aquele que deveria vê-lo e receber seu recado. Sabia que estava perto. Caminhava pelo canteiro central, já perto do Parque da Cidade, driblando os obstáculos que não eram assim inéditos. Tudo aquilo lhe lembrava aquele fatídico dia em que um acidente lhe transformara em cão. Mais a frente, percebeu uma nova avenida. Achou familiar. Era maior, como se fosse uma continuação daquela que lhe trouxe do lugar nenhum há alguns quilômetros dali.
Chiclete era um cão forte. Não era alto nem esbelto, mas era muito resistente e levava jeito para as brigas. Por várias vezes lutou contra dois, três ou mais, ao mesmo tempo. Sabia defender o que lhe interessava , e a si, com real afinco. Pode-se dizer que ele não era tão amistoso com seus semelhantes. Ou que estes sempre desgostavam dele, inexplicavelmente, no primeiro olhar. Desse histórico carregava uma característica muito peculiar. Não tinha a parte de cima que cobria o lado direito da mandíbula. Num primeiro contato isso causava aversão, assustava, mas logo o outro lado de seu rosto revelava o instinto sincero e fiel de Chiclete com os homens. Chegando no momento em que deveria escolher um lado a seguir, ou atravessar, Chiclete olhou adiante, no alto, e viu uma grande ladeira que levava a um outro mundo, acima de todo aquele caos molhado e pertubador. Nadou pela primeira pista até o outro canteiro, depois começou a correr, correr sem saber o porquê. De repente lhe tinha vindo a sensação de que ia para o lugar certo. Atravessara o canteiro, e agora teria que nadar pela segunda pista. Foi aí que se lembrou daquele menino contente em cada dente do sorriso que levava no rosto ao receber sua bicicleta nova e boa de novo. O mesmo menino que deveria saber que ele não tinha morrido de novo.
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