Era fim de tarde. Aquela faixa de luz solar descia em diagonal, esquivando-se dos prédios e cruzando a rua. Mais um dia cansativo. Decidi me enconstar numa mureta do ponto de ônibus. Só que nunca me encosto; prefiro sempre ficar em pé e cansado para ter noção de tudo que está rolando. É uma paranóia. Mas nesse dia, tava ouvindo uma música boa no rádio e relaxei total. Ao meu lado, uma pilastra que segurava a cobertura da parada de ônibus e, em frente dela, uma senhorazinha muito simpática vendendo doces e pipocas. Do outro lado, um casal colegial aos amassos.
Eu deixei tudo pra lá e curti o som que saía dos fones e me distanciava do mundo exterior. Quando a bela canção terminou, voltei à realidade e levantei a cabeça. Meu busu ainda não tinha passado. Mas olhando pro caminho do qual ele viria, eu os vi, em movimento: cachos pretos, lindos e surfantes. Olhei direito. A pilastra quase esbarrava em minha face. Meu olho esquerdo que conseguiu ver a metada da moça. Como uma obra de um desenhista misterioso, só os cabelos pude ver. Só que nem precisava ver o rosto, ela era linda. Só podia ser linda. Seus cachinhos dançavam ao som de "A menina dança", dos Novos Baianos, que tocava em meu celular. Tudo meio clichê, meio criado por um blogueiro solitário e bobo, foi isso que pensei. Mas foi isso que aconteceu. Não era estória de internet. Ela tava ali. Me esticando um pouquinho pude vê-la mais. Vi o nariz e a boca saltarem as ondas capilares para me saudar, como que se quisessem acabar com minha desconfiança, me dar certeza de que a beleza dos cachos cobriam outra beleza maior ainda. Me encantei. Tanto que tive que parar de olhar. Se não, eu podia me apaixonar. Tolo. Isso já tinha acontecido. Voltei o olhar para a senhorinha vendedora de pipocas. Simpática, sempre solícita com todos que queriam saber seus ônibus para chegar aos seus destinos. E eu ali, já sem rumo, nem lembrando que esperava a minha condução. Olhei de novo. Vi seu rosto, seu corpo todo, enfim. Ela se colocou de um jeito que driblou a pilastra. Parei novamente de olhá-la. Palpitei e simplesmente parei de pensar. Exato, nada mais passou na minha mente. Ela virou um vácuo. E o medo de me apaixonar, sabendo que era algo inevitável, não superou o de facilitar que os olhares se cruzassem. O que nunca ia acontecer. Ela, congelada, mirava com um olhar retilínio um lugar incerto. O que a tornava mais bela.
Enfim, quando virei o rosto novamente, ela tinha sumido. Um sensação estranha me corroeu por dentro. Só mais a frente, meus olhos a encontraram, quase no meio-fio, fazendo sinal para o próximo ônibus. Com a outra mão segurava um livro. Era tudo que levava. Tentei, mas fiquei sem saber qual era.
E, assim, vi aqueles cachos dançarem loucamente para subir as escadas do ônibus, me dando adeus. E então o carro partiu. Ao passar, procurei a moça dentro dele e não achei. Se era real, não sei. Mas eu a vi. E, em segundos, perdi a décima quinta mulher da minha vida de um jeito efêmero e já habitual.
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