Nas vibrações do dub, no suingue da guitarra baiana, na levada do groove, na batida eletrônica e na pegada percussiva, vi e senti uma das melhores performances ao vivo de banda baiana da atualidade, a da Baiana System.
Depois de muitos adiamentos, consegui ver um show. Uma musicalidade que já me despertou interesse no primeiro ouvir, que tinha um som muito experimental e interessante. Sem contar o guitarrista Beto Barreto, oriundo da banda Lampirônicos, que fez sucesso em Salvador quando eu ainda era menino - tá, nem tão menino - e que eu só pude curtir (e muito) por mp3, já que a banda entrou em um hiato sem fim já há um bom tempo.
O fato é que eu temia perder a chance de acompanhar mais uma banda com som original, que mistura o antigo, o novo e muitas vibes. Uns três ou quatro shows passaram e minha vontade de ir acabou não superando alguns imprevistos que me fizeram perder estes momentos. Mas, ontem, no primeiro sábado de agosto, com a banda voltando de uma turnê internacional, tocando no Pelourinho, na Tereza Batista, baratinho, não ia ter imprevisto certo.
Cheguei na expectativa de ver uma apresentação massa, mas não tão impactante como aquela, é verdade. O espaço completamente lotado. Todo mundo cantando tudo, uma energia surreal vinda do palco e também indo pro palco. A primeira impressão nem foi do som, que já rolava quando entrei, após longa fila. Foi a arte visual. Um jogo de luzes, cortinas, caixas, os símbolos em círculos e vértices, aquele azul doce dominando o palco, que te leva pra onda do show. Você já entra na lavada Baiana ali.
Somado a isso, o som chocou demais. De ficar de cara. Músicos que além de tocar de forma absurda, tem uma presença de palco excelente, que torna muito difícil - para não ser intolerante - não gostar do espetáculo que se forma em frente aos olhos, independente do gosto de musical que alguém que veja possa ter.
Nunca é demais falar do prazer que é ser surpreendido por uma banda boa em estúdio que é ainda melhor ao vivo. E isso, na minha opinião, é o diferencial musicalmente. Ser bom, ou até melhor, ao vivo, passar a energia da música. Fazer o público entrar na música, esquecer o mundo lá fora durante aquele momento. Em todas as letras, entreter.
Em "Oxe como era doce", encontro uma expressão perfeita para descrever a sensação do show: de boaça. Simples, simples, de boaaaça. Dá pra fechar o olhos e ficar a noite inteira naquela levada. O "tiririri teretê" é só um exemplo.
Transitando entre o rap, a salsa, o dub, a cumbia, o frevo, a percussão africana e nem sei mais o quê, a mente é desafiada e, no meu caso, de forma positiva. O rótulo, às vezes tão procurado, mesmo que de forma inconsciente, não vem, e você assiste a algo que se renova a cada música. A cada música do show, você curte ainda mais e a cabeça pode te perguntar o mesmo que me perguntei: "por que não viu isso antes, por que não veio antes, como poderia não ter vindo de novo?"
E óbvio que, além da banda, o público contribui muito. O fato de ter sido no pelourinho faz tudo ter mais sentido: as letras sobre a soteropolitaneidade, as casinhas como parte dos símbolos da banda, a baianidade safada que sai da guitarra baiana e as máscaras espalhadas pelo ambiente.
Algumas músicas mais aguardadas levam a galera ao êxtase, pra quem vai ao primeiro show, mais ainda. Sistema Fobica - com letra questionadora - e Barra Avenida - marcada pelo encaixe completo entre o agudo e o grave, tateando bem o carnaval - são só algumas dessas. Jah Jah Revolta, entoada como hino por todos, transita por melodias, com um arrepiante coral de "rastaman, vibration", que só vendo para ter noção real do quanto dispara a batida nas veias com esse que é um dos momentos mais épicos do show. E o mais incrível dessas descrições é que, parando para ouvir as versões em estúdio de todas músicas, nenhuma chega sequer perto à sua versão ao vivo. Excelente para quem acha que para se ouvir a mesma versão do estúdio, basta colocar o disco no rádio.
Em "Da calçada ao Lobato", aquele riff danado com uma percussão de salsa chama pra dançar. Todo mundo se bulindo, como diria qualquer baiano. O "Pio, Pio" e os "Hey" são sensacionais e te transportam a um outro show. É como se realmente cada música estivesse sendo um concerto de um ou três ritmos específicos. A poderosa versatilidade da Baiana System talvez seja o que mais agrada.
E, para completar, as músicas novas mantêm a qualidade, firmando a banda num cenário, que já transcende as fronteiras. Merece todo o registro o maior choque de energia da noite: "a Terapia a 1000 decibeis". Criatividade, ousadia e pluralidade em uma música. De uma suave e misteriosa introdução eletrônica a canção passa pra uma mistura sensacional de ritmos. Um arrocha "adubado" entra em cena, com uma letra cheia de manha, falando que "Há muito tempo eu queria te falar/Você não sabe o que queria dizer/I love you/I need you", além de um "tarará" usado na música durante a letra da forma mais "manhenta" possível. Em seguida, um pagode progressivo insano, com uma percussão eletrizante, toca a continuidade da música. Mistura sem preconceito musical e que trouxe resultado excelente. Levado pela mistura, o público dança três ritmos em sequência e, em certos momentos, ao mesmo tempo. Muito bonito. Visualmente, um jogo de corpos se balançado, como em coreografia, pelas sonoridades. Marcante. Uma pena ainda não ter encontrado em mp3 na internet. Fica um teaser, lançado pela banda em maio:
Reforçou o pensamento "não poderia ter adiado mais a vinda a esse show" e instigou a frequentar os próximos e a acompanhar ainda mais o trabalho da banda.
Sobre esse fantástico contato audiovisual no Pelô, diria que foi "um foguete, subindo que nem a porra!".



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