O jovem, desiludido, chega a um bar vazio e sombrio, pega uma bebida e senta numa mesa ao fundo. Com o olhar para o infinito, mal toca na bebida. Um velhinho sujo, mal cuidado e de poucos dentes, mas muita simpatia, também só, na mesa ao lado, sorri enquanto vira copos e copos de pinga. O jovem, então, decide ir até lá. Chega sem falar nada. Senta-se de frente pro desdentado sorridente e, depois, diz:
- Comemorando o quê, senhor? - em tom irônico.
- Eu, viúvo, sem filhos, sem trabalho, sem casa, sem banho, e velho, comemorando?
- Se não comemoras, o que..
- Tô só de passagem... – respondeu, desta vez cético.
- Mas com tantos sorrisos ao beber assim só, neste bar mais depressivo do que os que aqui vêm afogar-se?
- Nunca se está só quando ainda não se perdeu a simpatia. Ela tá aí?
- Ela, quem?
- A sua...
- Ah, não. Foi embora, faz tempo. Como tudo que eu tinha. – falou o jovem, com convicção.
- O que você tinha?
- Amigos, namoradas, carros, família... Tudo. Mas e você, o que tem além da simpatia?
O velhinho levantou, foi até a entrada do bar, pegou um caderno surrado nas suas tralhas que lá estavam e voltou:
- Aqui tem tudo de bom que já passei... fotos, histórias, memórias, viagens e até as contas de banco que já tive.
- Sim, mas o que tem de verdade? O que te faz seguir com tua simpatia? - perguntou o já incomodado jovem.
- Eu tenho a certeza de olhar pra trás e ver que na sua idade e no dobro dela, eu aproveitei tudo que pude, vivi com as melhores pessoas, tive os melhores presentes e fui pra onde quis ir. – disse-lhe, sério.
- Do que adianta, se hoje está assim, no lixo e sem nenhuma pessoa?
- Não me importa. Não quero mais nada da vida. Tomar pinga e ver que fui mais feliz que todos de pouca e meia idade que passam neste bar, já me deixa à espera de uma morte que só vai recompensar essa alma tranquila e cansada.
Antes que o jovem pudesse exprimir seu sentimento contrário à provocação de um mendigo filosófico, o velho pôs a mão em seu ombro, e com outra deu-lhe o caderno que tinha pego.
- Toma. Pega as folhas em branco e viva-as direito. Ainda dá tempo de compensar toda a fraqueza dessa juventude viril, que nunca existiu. Um ano bem vivido nessa velhice imunda é mais valioso que uma juventude pausada por ilusões esquecidas numa mesa de bar.
- Olhe, meu velho, o seu discurso é muito bonito, mas a vida não é fácil assim pra quem foi injustamente alvo de todas as tragédias que a vida pôde lhe oferecer. - com isso, o jovem voltou à sua mesa, arrependido de ter começado aquela conversa. Entornou seu copo, foi até o balcão, deixou o dinheiro e seguiu à porta, alterado. Fora um completo idiota indo até à mesa do velho e ouvindo tudo aquilo que não queria.
O velho, decidido, chamou-o, em tom de voz mais elevado:
- Amigo, faltou só um coisa. Deixa-me dizer.
O jovem parou e olhou pra trás.
- Na verdade, eu nunca fui feliz, nunca tive nada do que lhe falei. - falou o velho com a voz pesada e aparentemente muito sincera.
O jovem, confuso e sem muita paciência, quis entender:
- E por que me fizeste ouvir tanta história falsa, judiando do que restou da minha paz?
- Há meses eu venho aqui neste bar com um objetivo que nunca realizei... Mas, mesmo com todas as suas decepções, creio que você me deu uma esperança de que hoje eu poderei voltar ao leito do qual fugi, do outro lado da cidade.
- Aonde o senhor quer chegar, afinal?
- Pega esse caderno aqui. A capa já até se desprende, mas por dentro tá inteiro...
O velho andou até o jovem e lhe deu o caderno, visivelmente emocionado:
- É sobre minha vida, sim. O detalhe é que ele ainda tá vazio... e nem saúde eu tenho mais... Escreva aqui o que vai começar hoje.