Rafinha Bastos é o novo alvo da moralizada sociedade brasileira. De fato, a piada em detrimento de Wanessa Camargo (antes de ser do marido dela) foi lamentável por conter uma representação de valores não desejáveis – em certa medida – e ter por ter demonstrado falta de mínimo respeito, não só com a senhora, mas com os próprios espectadores. Todavia, a questão é: humor tem limite? Se tem, quem o delimita? A saída do apresentador foi devida?
A intriga implica em antever três aspectos.
Um: O Custe o que Custar passa por uma fase de queda de qualidade advinda da não mais tão efetiva pressão política que o programa costumava oferecer, inclusive por reportagens (hoje, fracas) no Congresso Nacional, que são o ponto alto da atração e o motivo que levou à conquista da admiração de muitos brasileiros – sofrendo por isso forte pressão da produtora argentina que já duvida da sequência do programa. Simultaneamente, o prestígio percebido pelos integrantes do CQC, considerado além de jornalístico, o melhor programa de humor, para muitos, elevou o ego de muitos deles, como, aliás, acontece quase sempre com quem conquista um sucesso repentino e crescente. Com isso, piadas egoístas e meramente gratuitas em tom depreciativo, certas vezes, foram gastas e manteram a boa audiência e suas risadas.
Dois: Rafinha, assim como Danilo Gentili, sempre foi conhecido por um humor diferenciado. Que não tinha limites nem compromisso com uma ideologia representativa do programa. Inclusive, acompanhando o CQC desde sua estréia em março de 2008, é visível que ambos foram contratos justo por assim serem e pelo sucesso dos “stand-ups” que seguiam essa linha. Rafinha, que é judeu praticante e de família judia, “judiou” incontáveis vezes com piadas sobre judeus, e Danilo, tinha como um dos grandes alvos de piadas, a sua própria mãe. E, ainda que desagradando a muitos, perseguindo até os que se demonstravam mais intolerantes às suas piadas, como Preta Gil e Luciana Gimenez, seu sucesso e prestígio dentro e fora do CQC só aumentaram.
Três: A mágoa que fez efeito. Não foi a de Wanessa. Nem a do seu feto. Foi do seu esposo que usou de seu poder financeiro e contato com outros que também o tem para incutir – em virtude de patrocínios importantes ligados à emissora -, mediante pressão, o sentimento de responsabilidade do programa pelo ocorrido. A indignação do homem marido da senhora Camargo e o fatídico comentário crítico de seu amigo Ronaldo Nazáreo foi o que puramente afastou Rafinha do CQC. Em nenhum momento, meus caros, foi perceptível que a piada machista e de mal gosto do apresentador foi o que o fez sair, simplesmente. Machista foi inclusive o processo de seu afastamento, chegando ao ponto do Custe o que Custar pedir desculpas ao ofendidO pai da criança.
O descontentamento aqui exposto não é de tanto discordante com o julgamento da conduta de Rafinha Bastos, mas da conduta da Rede Bandeirantes (que levou à hipócritas comportamentos de Marcelo Tas e Marco Luque e até a censura de um tuíte de Gentili pró-Rafinha), sempre condizente com ele fazer outras piadas muito, muito mais ofensivas no CQC e por o ter, até então, como certa jóia dentre os sete (sem contar Tas), por ele também ser o único jornalista no programa, por ter opinião própria (e crítica) – lembrem da “Liga”, sua proposta e sua resposta do público, e da insistência de Bastos em não deixar morrer o quadro "Proteste Já", político e interativo, cada vez mais sem espaço diante do humor leve - e nítida independência funcional, digamos assim, separando do seu jocoso eu lírico a sua identidade. E por este último fato, e nestas circunstâncias, o humor pode, sim, não ter limites. Deve ser limitado no tocante à reprodução intencional e, principalmente, persistente, de estigmas e rótulos dignos de repúdio. Diante do caso descrito e genericamente, a minha opinião é que o humor de Rafinha Bastos e Danilo Gentili não representa uma perseguição à manutenção de juízos discriminatórios, não podendo se chegar a essa conclusão assistindo a um puro caso de qualquer dos dois e eivado de pré-conceito inferiorizante.
A atitude de Rafinha Bastos não me pareceu nem um pouco engraçada, nem adequada sequer ao contexto lúdico do momento. E, sim, um erro em tevê aberta de projeção nacional pode ter conseqüências indevidas na formação de quem o assiste passivamente. Assim, ele deveria ser repreendido. Mas não da forma que foi e por quem de fato foi.
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