No último mês de julho, o que ocorre cotidianamente foi filmado por um mototaxista e, logo, enviado a emissoras de TV baianas, causando um rebuliço e um momentâneo apelo por direitos humanos, sendo em algumas delas, até controverso.
O fato: Um suspeito de furto foi perseguido por dois agentes de trânsito e alguns indivíduos. Após ser imobilizado e algemado... veja no video:
É constrangedor você viver em um Estado, supostamente Democrático de Direito, em que antes dele executar - equivocadamente - o seu poder de punir, a potencial justiça é feita por todos que se acham no direito de fazê-la, em moldes similares a tempos indesejáveis já vividos por este país. Não é preciso estudar ou aplicar o Direito para saber que cada um deve responder adequadamente pelo que fez, ou supostamente fez. Polícia judiciária e Poder Judiciário, pra que vos queremos? Não me afeiçoo com nenhum. Porém, instituídos estão para que eles cometam as (des)proporcionalidades em nome do Estado. Se o julgamento é feito instantaneamente, para que um devido processo de uma instituição, em desenvolvimento há seculos, para julgar, né?
Não estou como um utópico defensor dos direitos humanos tentando contra a maré. Mas a maré está errada. Assim como, majoritariamente, é a favor da pena de morte, a população brasileira é a favor de que todos os "vagabundos" sejam torturados e espremidos até o vazamento da sua última gota de sangue. Esquecendo-se muitas vezes que, apesar de muito errado estar nesta seara, o Estador é o árbitro dos conflitos frutos de um estado natural do bicho-homem, os cidadãos - talvez por estarem revoltados com aquele - creem que, no clímax do delito, o que vai resolver todos os seus problemas será a violência gratuita e, por que não, a devolução do mal na mesma moeda. Sim, eu disse gratuita. Porque em nenhuma ocasião o revide de três, cinco, quinze ou vinte contra um será justo.
A imprensa muito extraiu desse vídeo, conseguiu o afastamento dos agentes de trânsito e os criticou severamente. Eu não concordo com a afirmação dos agentes de que eles usaram apenas a violência necessária para imobilização do suspeito, as imagens falam por si. Porém, o que não vi se questionar é o que mais me preocupa e o alvo desse texto. O terceiro sujeito, representante mais simplista da "população" que citei acima, autor de uma atitude completamente repugnante. E seus comentários, desde o início do vídeo, são as opiniões da massa - independente de ideologia ou classe social - brasileira. Isso me constrange. Viver em um Estado formado de indivíduos perfeitos e honestos que se veem profundamente insultados quando uma ovelha negra, completamente não-condizente com o ambiente em que está inserido, vai de encontro a tal adequação, devendo eles expurgá-lo. Simples e fácil. Matem todos. Talvez o nosso país deva aprender um pouco com uma atitude dessas:
http://www.youtube.com/watch?v=K-EIFAeNumI - Em um Estado em que a Lei de Talião é legítima, não veladamente como no Brasil, mas explicitamente, encontramos exemplos como este. E,ainda sim, foi punido. Mais adequado ao que tanto se pesquisou para se aproximar de algo inatingível que é a justiça. Se nada repara o dano, não vamos (re)provocá-lo.
Curiosamente as duas notícias eclodiram na mesma semana, tornando impossível o outrem - que intitula este blog -, ávido por críticas aos Direitos Penais, ficar calado.
Houve um tipo de imprensa, um tipo sujo, que também foi destaque em Julho passado. A imprensa sensacionalista baiana que se alimenta e te alimenta na hora do almoço, com a mesma postura do anônimo agressor resolveu desequilibrar sua balança de olhos da justiça para o outro lado. Um jornalista de prenome José Eduardo, famoso por incitar a violência recíproca e execrar os acusados de crimes, quando algemados e expostos nas delegacias, talvez ainda imbuído pela "trágica e inesperada" morte da sua lenda Kelly Ciclone - ícone por namorar inúmeros traficantes de Salvador e ex-pré-candidata a vereadora -, derreteu-se em defesa deste sujeito agredido no vídeo, garantindo o seu lugar no céu, segundo afirmou Edir Macedo, seu patrão.
No Irã, em um caso isolado, a cegueira não foi completa. Aquela que estava cega pôde ver.
E aqui, onde vivemos? E aqueles que "vendo, não veem"?
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