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quarta-feira, 23 de outubro de 2013

certo olhar

trejeitos alinhados
sutilmente decididos
como quem acusa o desejo
e assim o deixa escapar

fala mais do que se poderia escutar
gesticula com malícia
uma pretensa conquista ocular

forte, mantém-se sereno
não se deixa duvidar
é, sim, um cume calmo
que assenta o encanto
porventura a se desencontrar

receptivo e remetente
dialoga como um flerte
ora como mero verbete
que se inscreve como palavra
na 'memória poética' de quem olharte

terça-feira, 6 de agosto de 2013

assim ó

andando por aí
vejo que tem gente vazia por todo canto
gente que passa satisfação e despreocupação
gente que triste,às vezes feliz, que se acha feliz
gente

talvez nem concordem
que demonstram um desânimo intrínseco
por vezes, desesperança
pode ser o sistema econômico voraz
a mentalidade pós-moderna fugaz
mas quem sabe estar bem
e o que é estar bem

autoilusões
preocupam mais

alguém disse que tem de ser dois
a papa do feijão com o arroz
e o um que fique pra depois
fora do ecrã

de uma realidade digital
massificada
ora embaçada,
embora elogiada
dita visionária
não antes embasbacada
pelos que a/se dominam

vos amam
vis tais dias
que nem vos chamam

abraçando a saudade
acolhendo seus ombros
encolhendo-se lá fora
não desce pra ver
não vai te perceber

acabou
ninguém notou

sábado, 18 de maio de 2013

bicondicional

Não saber até que ponto
ser impulsivo
ou ser todo ouvidos

Difícil ponderar
dois eus querem se dominar
e agir tal qual sujeito
desse predicado da vida

O certo é que ninguém sabe
mas todos afirmam
com elegante e falsa certeza
que assim ou assado
fica tudo melhor temperado

Não sei
não vos creio
padeço sem morrer
vivendo de tanto receio

sábado, 11 de maio de 2013

Morreu!


É o brado de um senhor de terceira idade, ainda servidor público, em algum cartório judicial desse Brasil. Brado feliz, diga-se. Nada mais que uma cena cada vez mais freqüente entre profissionais envolvidos com a área jurídica, sobretudo no âmbito criminal.

Não é novo que o sistema penal brasileiro sofre de inúmeros graves problemas, nem que o Estado brasileiro é ineficiente nesta seara, cometendo deslizes desde a elaboração de muitas leis à persecução criminal e aplicação desproporcional da privação da liberdade, muitas vezes antes de uma sentença condenatória. Diante deste contexto, com a desigualdade social, ainda abissal, neste país, estagnada ou crescente, sem perspectivas de mudanças estruturais, problemas como aumento da criminalidade, fome, desemprego, falta de moradia, crianças, velhos e adultos em situação de rua, ou seja, de negação de direitos fundamentais, se mantêm. Porém, apenas aos olhos de poucos, vez que, aparentemente, para a maioria o Brasil é visto como um país em crescente economia, que alavanca sua nobre classe média e conforta a tradicional classe alta.

Historicamente conhecido por negar um enfrentamento às causas destes problemas, o Estado brasileiro primou por medidas pontuais que enfrentassem o resultado dos problemas, sem que isso nunca tenha demonstrado qualquer indicativo de eficiência. Assim, o encarceramento excessivo, a repressão a “criminosos”, às drogas, aos jovens negros favelados suspeitos, não diminuiu os índices de cometimento de crimes, ao contrário, gerou um caos ainda maior na segurança pública, pouco ou mal planejada, geralmente vista de forma rasa como construção de presídios e compra de novas viaturas policiais.

Enfim, isso tudo reflete em um bombardeio de processos todos os dias nas Varas Criminais, sem que se tenha dado tempo ou que se tenha havido aparato estatal para solucionar os muitos processos antigos, que se acumulam nos armários e na velha conhecida “mesa do juiz”. Enquanto isso, muitos acusados “aguardam”, presos provisoriamente, para “garantir” a instrução – longa ou precária – do processo, ou para supostamente salvaguardar a ordem pública, ainda órfã de definições objetivas.

Neste caos, eis que o que se fizer para concluir o processo da forma mais rápida possível, nem que seja sem nem haver uma instrução adequada, que permita efetiva defesa ao acusado, é aclamado. Então, quando chega a notícia de que algum acusado já veio a falecer – na realidade da justiça paralela, a das ruas, onde agentes estatais paladinos pré-julgam, condenam à pena de morte e a executam, possivelmente após um caso de resistência, no qual o sujeito curiosamente fora baleado nas costas, como muito acontece – é sinal de alívio e até de alegria.

Punhos chegam a ser cerrados em comemoração às mortes, que representam processos e trabalho a menos. O sorriso se abre no rosto do atendente do balcão, passando pela diretora do cartório, pelos assessores do juiz e até pelo membro do Ministério Público. Situação corriqueira, que quinzenal ou mensalmente se repetia. Triste realidade. Vista de perto por alguém que ainda nutre (ou tenta) algum sentido de humanidade na vida, e, independente disso, “apenas” deseja que garantias constitucionais e internacionais, conquistadas ao passar de muitos anos (ou séculos?) e períodos difíceis, sejam efetivadas.

PS: o senhor referido é um juiz de direito.

sexta-feira, 15 de março de 2013

vai saber


isso aqui é a poesia
pra que escrever
e tentar enquadrar
o que escrito está
na paisagem do lugar?

a tarde cai
pintando de amarelo
manchando em tom avermelhado
esse lugar de arte banhado
no leito do rio
que não se vê

no olhar do mar
que contempla o largo
que admira a abundância
a brilhar de um lado
e aqui todo mundo apertado

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Caminha
Deseja
Aspira
Chega

Encosta
Deixa o transitório
e ensaia o guia
sem a guia

Leve
Levando de alma
o ar
Samba na costa
Calça areia
e se apruma

Apanha a tralha
e se vai
sem rastro
até o próximo cais

domingo, 17 de fevereiro de 2013

a menina do cocar


morena, só pra variar
"fruta de vez temporana"
saiu da melodia
cheia de malícia

bailava e jogava
sorria
sumia
e aparecia

se existia, vai saber
era do carnaval
trio do velho Moraes
canções de outros carnavais

pra toda a gente
um certo caos
a alheia alegria
muita informação

e o cocar era colorido
a calça, azul
a morena, mulata
o resto, preto e branco

era linda
veio umas três vezes
dispensava os rapazes
sapecava na avenida

tonteava todos eles

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

outros cantos


vou pegar um ônibus para uma Vida Nova
largar esses Aflitos
que só reclamam do Pau Miúdo
e da minha Nazaré
que não é cheia de Graça
e já não vai bem de Saúde

mas tenham Piedade
daqui de tudo Brotas
o Gil do Tororó
o Lázaro do Garcia
e até o filho do Seu Bororó

só que falta mais Liberdade
pra eu poder Amar a Lina
na Ribeira das Águas Claras
ou na levada das Ondinas
sem temer a Santa Cruz

caminhar por uma Mata Escura
sem se preocupar com Stiep
andando a pé até a Sé
onde aquela Barra
não me Chame
de Curuzu

eu quero outra capital,
uma Cidade Nova
uma Nova Brasília
que tenha mais verde
que seja uma Cidade Jardim
e que tenha um grande Rio Vermelho

ou, então, vou por um Caminho de Areia
sem Calçada para atrapalhar
procurando um bairro de Paz
onde não ameacem Matatu

e nem que eu tenha que beijar a Vitória
pra ficar com a Valéria
num Bonfim
vamos nos Mares brindar
tomando Stella Artois




domingo, 6 de janeiro de 2013

é dia na rodovia


Nasceu
nas borrachas de pneu
nas entrâncias do asfalto
nas fibras de carbono
mas nasceu

De peito aberto
gracejando o ambiente
com os traços de luz
desenhando a claridade
invadindo as nuvens
pintando tudo
de manhã

zélia e jorge


Perene
sincero
distante do presente
soava utopia
só para alguns
não aos dois
se completando
feito grãos de arroz

na brisa do bar
uma sombra
de uma exuberante secular
o silêncio fala de amor
e o declara ao vento
que sedimenta a crença
no anseio alheio
por algo verdadeiro