Pra quem reclamava dos DJ's freelancer que faziam ouvir as músicas que eles quisessem, agora eles querem que as pessoas comprem as músicas que eles ouvem.
Pois é. E em uma curta viagem fui vítima de um bombardeio de ofertas.
Pego o ônibus e, uns cinco minutos depois, entra um coroa distribuindo cd's com 160 canções de louvor a Deus, ressaltando os sucessos do momento - sim, estava escrito assim na contracapa do disco - e como seria bom tantos talentos em nossos ouvidos por apenas R$ 2,00. Nessa mesma hora ele dá play em um aparelho minúsculo que caía sobre seu ombro. Surgiu do nada aquilo e tocou umas quatro músicas, uma sobre o "dilúvio do amor".
Teve até uma boa venda. Pessoas que já gostavam e outras vencidas pela publicidade pegaram os seus.
O incrível mesmo veio logo depois. O cara desceu do buzu, subiu outro na sequência. Assim, de imediato. Com aquele aparelho de som Bronx 80'. E chegou efusivo: "Bora, galera! Eu tenho o que você quer ouvir. Os melhores sucessos internacionais dos anos 70, 80, 90 e 2000!" - E todo mundo com cara de meme olhando pra ele, ocupando toda a frente do ônibus com seus 1m90.
Só que ele foi mais direto. Deu play no rádio e, em um volume ensurdecedor, ecoou Adele - PQP - com Someone Like You, aquela... música nova. Tocou, tocou. Ele viu que ninguém reagiu. Aí, mudou de faixa... Para tu amor (que es mi tesoro...) - Juanes (?) - é, foi a cara de todos. E isso tudo em um volume absurdo. Incomodando mesmo... Mas o cara tinha boa intenção, né, vendendo o dele, tava eu pensando assim até ter que desistir de tentar escutar o áudio baixo e engasgado do disco de 74 de Cartola que tocava no meu celular.
Essa ficou pouco tempo, próxima: algo parecido com James Blunt, só que era uma mulher com voz de homem, e não o contrário. Muito constrangedor esse momento. O ápice daquele todo nonsense, até então.
Insistiu nessa, até que apelou: LOVE HURTS. Velho...
18h, pessoas caladas, caras fechadas, mais um dia, e cansativo, sós no seu interior, querendo chegar em casa. E, aí, vem essa canção escrota, ficou todo mundo na solidão forever.
Foi desnecessário aí com a galera. Mas depois daí, eu ri, sem conseguir disfarçar, o cara tava na zueira, tentando de tudo mesmo.
Outra canção clichê de amor de sessão da tarde - muito conhecida, cujo nome me passei - e o cara, firme e forte, tira da do bolso aquela canção do "dilúvio de amor" do coroa que passou primeiro. Aí não pude crer.
E com cara de "não é possível, pelo menos de Deus vocês tem que gostar". Mas, ele vacilou, coitado, todo mundo já tinha ouvido e comprado aquela música dez minutos antes.
Desolado, desce do carro: "Vou nesse aqui, motorista. Todo mundo com o coração muito duro, sem sentimento" - e já na calçada, falando pro buzu - "O povo aí tá com o coração fechado... mas, olhe, vai abrir! Eu sei que vai" - e deu play em Adele (imagina? Someone Like You) pras pessoas do ponto fazerem a mesma cara de meme away.
Fiquei me sentindo sem sentimento e coração de pedra haha. Quem sabe com Pablo da próxima vez?
E o ônibus seguiu seu destino. À espera do novo songpoper.